10/07/2015

Coração de Tinta

Postado por May Cyrne |

Há muito tempo Mo decidiu nunca mais ler um livro em voz alta. Sua filha Meggie é uma devoradora de histórias, mas apesar da insistência não consegue fazer com que o pai leia para ela na cama. Meggie jamais entendeu o motivo dessa recusa, até que um excêntrico visitante finalmente vem revelar o segredo que explica a proibição. Quando Meggie ainda era um bebê, a língua encantada de Mo trouxe à vida alguns personagens de um livro chamado 'Coração de Tinta'. Um deles é Capricórnio, vilão cruel e sem misericórdia, que não fez questão de voltar para dentro da história de onde tinha vindo e preferiu instalar-se numa aldeia abandonada. Desse lugar funesto, comanda uma gangue de brutamontes que espalham o terror pela região, praticando roubos e assassinatos. Capricórnio quer usar os poderes de Mo para trazer de Coração de tinta um ser ainda mais terrível e sanguinário que ele próprio. Quando seus capangas finalmente sequestram Mo, Meggie terá de enfrentar essas criaturas bizarras e sofridas, vindas de um mundo completamente diferente do seu.

Mo é um 'médico de livros', um restaurador de obras, mas também tem o poder que todos nós gostaríamos de ter, ele consegue transformar em realidade tudo o que ele lê em voz alta. Mas esse poder maravilhoso tem seus contratempos, cada vez que ele traz algo de um livro, alguma coisa do nosso mundo some. Pode ser um lápis, um botão, ou então dois gatos e uma pessoa. Por isso, Mo evita ler em voz alta. 

Com vários personagens cativantes e de leitura fácil, Coração de Tinta rapidamente tomou um lugar na minha estante de favoritos. A história se passa no nosso mundo, com pitadas de fantasia, o que torna tudo mais possível e dá um sabor a mais na leitura. 

Ele é o primeiro de uma trilogia do Mundo de Tinta, escrito por Cornélia Funke, e cada capítulo começa com trechos de clássicos da literatura internacional e desenhos relacionados ao capítulo. O que mais me chama atenção é que ele tem uma história completamente fechada, podendo ser lido separadamente, caso você não tenha vontade de mais um livro de continuação. Mas aviso, você vai querer saber o que acontece depois da história!

Sobre a edição, devo dizer que tenho a minha à dez anos e agora que ela começou a amarelar, o que já diz muito sobre a qualidade das páginas. Outro destaque é essa capa maravilhosa, toda inspirada em iluminuras, bem resistente, que até hoje não desbotou ou descascou, apesar de eu ter lido inúmeras vezes. Em suma, de ótima qualidade =)

Sneak Peek: 


  • 1. Um estranho na noite

Chovia naquela noite, uma chuvinha fina e murmurante. Ainda depois de muitos anos, bastava Meggie fechar os olhos e ela podia ouvi-la novamente, como se minúsculos dedinhos estivessem batendo em sua janela. Um cão latia em algum lugar na escuridão e, por mais que se virasse de um lado para o outro, Meggie não conseguia dormir.
O livro que ela começara a ler estava debaixo do travesseiro. Cutucava o ouvido dela com a ponta da capa, como se quisesse chamá-la de volta para suas páginas. "Oh, deve ser mesmo muito confortável dormir com uma coisa dura e pontuda debaixo da cabeça", dissera seu pai na primeira vez em que encontrara um volume sob o travesseiro dela. "Confesse, à noite ele sussurra histórias no seu ouvido." "Às vezes, sim!", respondera Meggie. "Mas só funciona com crianças." Em troca, Mo lhe dera um beliscão no nariz. Mo. Meggie nunca chamara o pai de outra maneira.
Naquela noite, em que tanta coisa começou e tanta coisa mudou para sempre, um dos livros preferidos de Meggie estava debaixo de seu travesseiro. Como a chuva não a deixava dormir, ela se sentou, esfregou os olhos e pegou o livro. As páginas farfalharam cheias de promessas quando ela o abriu. Meggie achava que esses primeiros sussurros soavam de maneira diferente em cada livro, conforme ela soubesse ou não o que ele lhe contaria. Mas agora era preciso providenciar luz. Havia uma caixa de fósforos escondida na gaveta do criado-mudo. Mo a proibira de acender velas à noite. Ele não gostava de fogo. "O fogo devora os livros", ele sempre dizia, mas afinal de contas ela tinha doze anos e podia muito bem tomar conta de algumas chamas. Meggie adorava ler à luz de velas. Ela havia posto três pequenas lanternas e três castiçais no batente da janela. E estava justamente encostando o palito de fósforo aceso num dos pavios já queimados quando ouviu os passos lá fora. Assustada, Meggie apagou o fogo com um sopro - como ela ainda lembrava nitidamente depois de muitos anos -, ajoelhou-se em frente à janela molhada pela chuva e olhou para fora. Foi então que ela o viu.
A chuva dava à escuridão um tom esbranquiçado, e o estranho quase não passava de uma sombra. Somente seu rosto, virado na direção de Meggie, brilhava lá embaixo. Os cabelos estavam grudados em sua testa molhada. A chuva o encharcava, mas ele parecia não se importar. Estava imóvel, os braços em volta do peito, como se dessa maneira pudesse se aquecer pelo menos um pouco. Assim, ele olhava para a casa de Meggie.
"Preciso acordar Mo!", Meggie pensou. Mas continuou ali sentada, com o coração aos pulos, os olhos fixos na noite, como se o estranho a tivesse contagiado com a sua imobilidade. De repente ele virou a cabeça e Meggie teve a impressão de que olhava diretamente em seus olhos. Ela pulou da cama tão afoita que o livro aberto caiu no chão. Descalça, saiu correndo pelo corredor escuro. Estava frio na velha casa, embora já fosse final de maio.
A luz do quarto de Mo estava acesa. Era comum ele ficar lendo até altas horas da noite. Meggie herdara do pai a paixão pelos livros. Quando ela tinha um sonho ruim e ia se refugiar junto dele, não havia nada melhor para fazê-la adormecer do que a respiração calma de Mo ao seu lado virando as páginas de um livro. Nada espantava mais rápido os sonhos ruins do que o barulho das folhas impressas.
Mas a figura na frente da casa não era um sonho.
O livro que Mo estava lendo naquela noite tinha uma capa de pano azul-claro. Também disso Meggie se lembraria mais tarde. Quantas coisas insignificantes ficam gravadas na memória!
- Mo, tem alguém lá fora!
Seu pai ergueu a cabeça e olhou para ela com uma expressão ausente, como sempre fazia quando ela o interrompia na leitura. Sempre demorava alguns instantes até que ele voltasse inteiramente do outro mundo, do labirinto das letras.
- Tem alguém aqui? Você tem certeza?
- Tenho. Ele está olhando para a nossa casa.
Mo pôs o livro de lado.
- O que você leu antes de dormir? O médico e o monstro?
Meggie franziu a testa.
- Mo, por favor! Venha comigo.
Ele não estava acreditando, mas foi atrás dela. Meggie o puxava com tanta impaciência que ele deu uma topada com o dedão do pé numa pilha de livros. E no que mais poderia ser? Havia livros espalhados por toda a casa. Eles não ficavam apenas nas estantes, como na casa das outras pessoas. Não, ali eles se empilhavam debaixo das mesas, em cima das cadeiras, nos cantos dos quartos. Havia livros na cozinha e no banheiro, em cima da televisão e dentro do guarda-roupa, pilhas pequenas, pilhas altas, livros grossos e finos, velhos e novos... livros. Eles acolhiam Meggie de páginas abertas na mesa do café-da-manhã, espantavam o tédio nos dias cinzentos - e de vez em quando alguém tropeçava neles.
- Ele está plantado de pé ali fora! - sussurrou Meggie enquanto puxava Mo para dentro do quarto.
- Ele tem uma cara peluda? Se tiver, pode ser um lobisomem.
- Pare! - Meggie olhou para o pai com uma expressão séria, embora as brincadeiras dele espantassem seu medo. Ela mesma quase já não acreditava mais na figura lá fora na chuva... até ajoelhar-se de novo diante da janela. - Ali! Está vendo? - ela cochichou.
Mo olhou para fora através das gotas de chuva que continuavam a escorrer no vidro, e não disse nada.
- Você não jurou que aqui nunca viria um ladrão, porque não há nada para roubar? - sussurrou Meggie.
- Não é um ladrão - Mo respondeu, mas estava com uma expressão tão séria quando se afastou da janela que o coração de Meggie começou a bater ainda mais depressa. - Vá para a cama, Meggie. A visita é para mim.
E então Mo já não estava mais no quarto - antes mesmo que Meggie pudesse ter perguntado que visita, por tudo neste mundo, podia ser aquela para aparecer daquele jeito no meio da noite. Aflita, ela foi atrás dele, no corredor ouviu-o soltar a corrente da porta e, quando chegou ao vestíbulo, Meggie viu o pai parado em frente à porta aberta.
A noite escura e úmida penetrou na casa, e o barulho da chuva soou alto, ameaçador.
- Dedo Empoeirado! - exclamou Mo para a escuridão. - É você?
Dedo Empoeirado? Que nome era aquele? Meggie não conseguia se lembrar de tê-lo ouvido alguma vez, mas assim mesmo lhe parecia familiar, como uma lembrança muito antiga que não quer tomar forma definida.
Por alguns instantes, tudo permaneceu quieto lá fora. Somente a chuva caía, murmurando e sussurrando, como se de repente a noite tivesse adquirido voz. Então Meggie ouviu passos se aproximarem da casa, e o homem que estava no pátio emergiu da escuridão. O longo sobretudo que ele vestia estava grudado em suas pernas, encharcado de chuva, e, quando o estranho apareceu na luz da frente da casa, por uma fração de segundo Meggie pensou ter visto sobre seus ombros uma cabecinha peluda meter o nariz para fora da mochila e depois se enfiar bem depressa dentro dela novamente.
Dedo Empoeirado passou a manga no rosto molhado e estendeu a mão para Mo.
- Como vai, Língua Encantada? - ele perguntou. - Há quanto tempo!
Mo apertou a mão estendida, com hesitação.

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