22/06/2011

Blogs, leituras, resenhas e otras cositas más...

Postado por Liliane Cristine |

Texto de Vivi do blog Romance Gracinha

Há três anos, resolvi criar o RG, o meu diário de leituras, influenciada pela Lili.  O blog meio que se criou e foi se fazendo na prática. No entanto, durante esse tempo todo, cumpro a mesma rotina antes de publicar um texto. Costumo fazer a seguinte pergunta: O que é mais importante? Eu, blogueira?  A resenha? O livro? O autor? A literatura? A editora? E a resposta que me vem é sempre a mesma: a leitura.

Ao longo desses três anos, descobri que o bacana de blogar sobre livros é anunciar o impacto emocional advindo de uma boa leitura. Sabe, é como dizem, dividir o alimento, pois não basta apenas consumi-lo.

Contudo, tenho visto sobressair um enfoque pelo qual não nutro grande simpatia. O da resenha pela resenha. O do post pelo post. A da agenda do blog (especialmente com seus sorteios e promoções) ditando o ritmo da leitura.  E assim, aspectos acessórios tomam ares de estrelas. Pode ser que o que digo seja controverso. Sei que há casos e casos. Se polêmica há no que digo, espero que as coisas por aqui se encaminhem para o debate de idéias. Viu, Lili?

Nesse sentido, é manifesta uma equação muito clara: lê-se mal, lê-se às pressas, e por conseqüência, resenha-se mal. A questão não é seguir uma cartilha de normas sobre como resenhar. Todo mundo sabe o quanto a leitura é importante para melhorar a expressão oral e escrita. Se não se sabe ler, não há Metodologia Científica que salve.

Todo mundo sabe da realidade brasileira de que é possível terminar o ensino médio sem ter lido livro algum.  Vez ou outra, recebo emails cuja solicitação é quase sempre a mesma. “Como faço para escrever?” A minha resposta é leia, leia, leia. E faça um diário de leitura. Um registro coeso e fluente de impressões basta. Nada de se deter com o domínio exímio das regras ortográficas e gramaticais, mas concentre-se em concatenar as idéias com originalidade. Escreva como se conversasse com o seu melhor amigo. Em resumo: exercite. Desde que haja esforço, com o tempo, seus pensamentos cumprirão o objetivo de comunicar com expressividade e segurança. E, claro, siga sempre escrevendo com humildade.

Um blog sobre livros pode existir para esse fim. Porque o fim não é o post, não é a resenha, não é o gramatiquês correto. Mas, é tudo o que advém da leitura. Incomoda-me bastante a limitação que se dá à atividade de um blog desse tipo. Sim, pode haver algo além das resenhas. Algo além da recomendação de livros. Um blog sobre livros se justifica por outras razões tais como aprender a ler, a escrever, a se curar, a desenvolver a autovalia, a ler-se a si mesmo e o mundo...e por aí vai.

Veja o tanto que pode ser feito em um blog literário! Pois é.  Ele é também um espaço de bate-papo informal onde se pode “resenhar” como quem brinca de criar uma nova linguagem “resenhística”. Vide o exemplo da Cíntia. (http://www.cintiamcr.com.br/2011/04/o-guia-do-mochileiro-das-galaxias.html ) Onde se pode avaliar um livro pelo sabor que ele deixa. Vide o Peregrino. http://neiriberto.blogspot.com/2011/06/rei-lear-desafio-literario-2011.html 

Os blogs literários precisam sair desse ensimesmamento afeito aos padrões, dessa postura de recomendar livros como se fossem legisladores da aquisição e dos bolsos alheios. Olhem para o mundo em constante e vertiginosa mudança que requer de nós um olhar plural. Vivemos em um contexto multimídiatico em que o texto se transforma em imagem, imagem se transforma em texto de modo que o falar sobre livros pode ser feito de maneiras originais e diferentes. E o genial ainda não está nisso. A cereja do bolo é que vivemos em um contexto em que nos é possível assumir a posição de autores do nosso próprio discurso.

Hoje podemos ser fãs e estar no palco ao mesmo tempo. Trocamos figurinhas, congregamos entusiasmos sobre o objeto de nosso interesse e recriamos histórias dando aos personagens um contorno só nosso. Não só compartilhamos as passagens preferidas, como criamos fanfics, fanarts, seja lá o que for, pois temos a liberdade para produzir conteúdo sem necessidade da aprovação e aval de ninguém. Até mesmo os autores que lemos e admiramos não dominam o espaço do blog e da leitura sozinhos. Mas transformam-se em companheiros de jornada.

Quando o único contato de divulgação e comunicação de uma obra era mediada pela voz de uma minoria de críticos, o que tínhamos era consumo solitário. E só. A interação com o autor para além do texto era praticamente inexistente. Com outros leitores, então, nem se fala.

Longe de mim determinar o fim da era dos críticos profissionais. Eles (os bons críticos) têm lugar de importância na sociedade da informação em que vivemos. Como tem! E é por isso que atribuo a eles a tarefa de criar resenhas técnicas e criteriosas para os livros que leem. Evidentemente que espero que as críticas dos especialistas estejam sempre a distância de um clique para que eu as leia e tire as minhas conclusões.

Para a comunidade blogueira defendo resenhas caprichadas e críticas (sem a roupagem de verdade absoluta, mas com bons argumentos. E, claro, que não contem o livro todo, pois nisso o autor se sai bem melhor. Mas que provoquem o interesse até que se sinta fome de leitura). Porém, em primeiríssimo lugar, a minha defesa é em favor do prazer de ler. Afinal antes de sermos blogueiros ou resenhistas, somos leitores. E, a grosso modo, abandonar-se na leitura de um livro é diferente de lê-lo com os olhos da técnica. Aproveito o ensejo para citar as palavras do crítico de teatro Francisque Sarcey (1827-1899):

Como estou cansado de ler os livros para saber o que vou dizer deles! Isso não é mais ler! Não é mais se abandonar, é reagir, é ler em si mesmo, muito mais do que no autor.

Não por acaso, tive o prazer de ler o livro “Literatura em perigo” de Todorov (teórico de estudos literários) em que ele condena uma prática que ele próprio ajudou a estabelecer nos meios acadêmicos, a saber: análises literárias em que se privilegia exacerbadamente a estrutura formal em detrimento do sentido. Pera lá! E assim muitos saem dos bancos escolares odiando os livros! Não podia ser diferente. 

O discurso humanista de Todorov em favor do prazer pela leitura vem em boa hora.

Por essas e outras, sinto-me de alma lavada e espírito aberto para saborear o prazer estético e literário dos livros. Ler por prazer e não para ter opinião obrigatória sobre tudo. Como leitora, quero ter o direito de poder dizer, sempre que eu quiser, se gostei ou não de um livro. Trata-se de um ato intrínseco à minha experiência de leitura, pois sei que o meu gostar parte da vivência de cada palavra lida. Porque ignorá-lo em nome da neutralidade? Desculpem-me os puristas, mas quando o assunto é leitura, não consigo ser neutra.

Nesse sentido, preciso dizer: não vejo mal em críticas entusiasmadas, apaixonadas. Ora, leitores comuns podem! Tá valendo nota? É para passar de ano? Então, relaxa! Agora, se é adulação paga com brindes de editoras, deixa-a lá com quem a escreveu.

Clicou, passou.

Bem, essa é uma opinião leiga sobre esse assunto. A natureza do meu discurso é tão prosaica, sendo subjetiva demais para ser considerada verdade. Ou mentira.


Mas, se existe algo que almejo para minha vida de leitora é " aprender a ler como se aprende a tocar violino, ou seja, para saber tocar e desfrutar do máximo de prazer possível ao tocar." (Emile Faguet)

Viva a felicidade de ser leitor!




***


É com muita alegria que abro espaço para minha amiga Vivi do blog Romance Gracinha, expor tão magnificamente sobre esse tema polêmico que merece ser sublinhado por todos que prezam a assiduidade do aprendizado como leitores(as) e blogueiros(as).

Muito obrigada amiga, por partilhar comigo e com os leitores do Nossos Romances a sua posição em relação a todas estas " cositas. " rs 
E o NR vai estar sempre de portas abertas para você!

Obrigada mesmo de coração!
beijos

11 comentários:

Vivi disse...

Liliii, essa foto é antiga. Onde vc a achou? Traz boas lembranças...rs

Prazer é todo meu em ter um texto meu publicado no NR. Estou me sentindo em casa.

Outra coisa: conserta as aspas da citação do Emile Faguet para mim? As aspas começam a partir do "aprender a ler como..." (Falha minha!)
Brigadú!

Beijocas

Cat SaDiablo disse...

Gostei do muito do post. Muito actual e certeiro.

slayra disse...

Foi um prazer ler este texto! Muito bem construído, interessante e com pontos de vista muito válidos! :)

disse...

Primeiramente quero parabenizá-la por abrir este espaço de opiniões em seu blog, Lili. Só acho que deveria ficar mais visível o título da coluna "Bate Papo".
Vivi, gostei da sua opinião franca e sincera. Não são todas as blogueiras que tem a coragem de se manifestar de forma tão aberta. Saiba que certamente críticas veladas ou não surgirão vindas de diversas maneiras. Mas, não podemos nos calar diante do que tem se tornado a relação dos blogs com as editoras. Não quero ser dona da verdade. Não vejo problema em se fazer promoções, pelo contrário, acho válido presentear os leitores que prestigiam o blog. No entanto, não concordo com a forma como isso tem se dado. Ao meu ver, parece uma barganha, tipo: me dá o livro que eu faço a resenha favorável, independentemente da qualidade da obra. Acho isso "fake" demais. Não digo que todos os blogs sejam assim, mas boa parte perdeu a verdadeira essência da coisa e se converteu em blogs "robôs" comandados por editoras. Aff...estes eu não leio, não perco meu tempo. Se você não perceber que clicou em um link diferente tem a sensação de ler o mesmo blog sempre. Mesmos discursos, mesmas falas, mesmas opiniões. Help!!!! Fica tudo muito parecido e descaracterizado, sem vida. Resultado: resenhas pobres e sem conteúdo.
Não tenho compromisso com ninguém, minha opinião é como observadora. Há milhares de seguidores de blogs assim que acessam e gostam. Y viva la vida!! Que bom que exista público para todos. Eu tenho o direito de escolha e acesso o que eu quiser.
Bjs...Rê

Lili disse...

Oi Re! Obrigada por compartilhar tb a sua opiniao aqui no blog NR!
E realmente agora especialmente, o topico bate-papo precisa estar com mais destaque e visibilidade. Vou pensar um jeito pra melhorar isso.

Obrigada por dividir conosco a sua opiniao :)

beijos

Prof.ª Helena Inegues disse...

Sou professora de Língua Portuguesa e emu grande desafio é este....tornar meus alunos leitores. Mas leitores que leem por prazer e não por obrigação. Sou completamente apaixonada pela leitura e concordo quando você diz que ler para ter algo a dizer ou a obrigação de resenhar já quebra o encanto. Ler é bom demais....nos leva a viagens maravilhosas!!! Parabéns por suas colocações....

Cíntia Mara disse...

Ótimo texto, Vivi, como sempre.

Esses dias um amigo comentou que viu uma matéria dizendo que a maioria das pessoas que utiliza a internet, o faz para, entre outras coisas, adquirir conhecimento. Escrever é adquirir conhecimento, aprimorar a escrita. Blogar é tentar, é ser criativo, é inventar. Eu, particularmente, não sou uma pessoa tão criativa assim pra resenhas; gostaria de ter mais boas ideias. Mas não é por isso que vou desistir! Pelo contrário, procuro sempre melhorar tudo o que escrevo. (Aliás, se alguém quiser conhecer um blog com textos bastante originais, recomendo o Inútil Nostalgia http://inutilnostalgia.blogspot.com/)

Se você não perceber que clicou em um link diferente tem a sensação de ler o mesmo blog sempre. Mesmos discursos, mesmas falas, mesmas opiniões. Help!!!! Fica tudo muito parecido e descaracterizado, sem vida. Concordo! Já deixei de seguir vários blogs por esse motivo.

E, Vivi, muito obrigada por ter citado a minha resenha :-)

Beijos

Vivi disse...

Cat e Slayra, o prazer é meu em poder contar com a presença de vocês nesse diálogo.

Rê, suas ponderações são mais que pertinentes. A sua observação é acuradíssima. De fato, vejo muito blogs perdendo à autonomia de seu próprio discurso. Pena. =(

Helena, todos os aplausos do mundo por sua dedicação à profissão que salva vidas. Se todos tomassem consciência de que a leitura salva, viveríamos em um mundo diferente. Espero que seus alunos aprendam consigo o prazer imenso que uma boa leitura proporciona.

Cíntia, bom vê-la aqui! Mesmo. Sou admiradora das resenhas que subvertem a linguagem, a técnica fazendo uso da criatividade, do poder da expressão. E como conseguir isso sem ter o suporte de uma boa leitura ? Por intermédio da leitura, nada se perde, tudo se transforma. É o que aprendi. Olha, leio poucos blogs e dentro desse pequeno universo, até a presente a data, a sua resenha foi a melhor que li esse ano. =D

Beijocas

Bjs

disse...

Cintia, quero parabenizá-la por sua resenha citada neste post. Quanta criatividade, garota! É disso que precisamos: Liberdade na escrita. Falar com o coração! Se soltar!!
CLAP, CLAP, CLAP (Sons de aplausos)rs...
CLAP CLAP CLAP para o Neiriberto que teve também a excelente resenha sobre Rei Lear citada neste post.
Arrasaram!
CLAP, CLAP, CLAP para Lili por ter cedido o espaço para discutirmos este tema e para Vivi que registrou com ponderação o assunto em questão.

Abraços, Rê

Tatiana disse...

AMEI O BLOG!!! AMO ROMANCE!!! PARABÉNS!!!

Lili disse...

Obrigada Tatiana! :)
Beijossss

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